Condenados à esperança – Rithy Panh ****
(Neak sre, 1994, Camboja/França/Suíça/Alemanha)
Exibido na Mostra de 1994 com o título de Pelos campos de arroz esse filme de Rithy Panh, que teve seu mais recente filme, S21 - A máquina de matar dos khmers rouge, exibido ano passado no Festival do Rio e na Mostra de SP, é uma pequena obra-prima. Infelizmente não vi S21, que confesso, passou completamente despercebido. Pena. O fato é que poucas vezes a natureza foi retratada com tanta generosidade e beleza como em Condenados à esperança. O filme alterna momentos onde se assume tom quase documental, notadamente nas sequências (deslumbrantes) nos campos de arroz, que vai se diluindo no decorrer da narrativa até terminar num registro apaixonante e, como a personagem da mãe, enlouquecido.
Primeiro dá se o plantio do arroz. O pai morre. Inicia-se o período das chuvas, necessárias para o bom desenvolvimento da plantação. A mãe trabalha na terra. Ela enlouquece e a filha assume seu papel. As chuvas continuam. Chega o momento da colheita. Do plantio à colheita, de pai/mãe para filha.
Mãe e filha observam o pôr do sol em momentos diferentes. Vemos o mesmo enquadramento. Ambas constatam que o que lhes resta é continuar cultivando o arroz. Para a primeira não existe futuro para os filhos. Para a segunda é chegada a hora de assumir o papel mãe. E assim completa-se mais um ciclo e outro se inicia. Condenados à esperança é, antes de tudo, um diálogo entre homem e natureza. Nos momentos de silêncio ouvimos o som da natureza. O arrozal, a chuva, o sol e o vento manifestam-se em imagens carregadas de significados, que nos permitem entender a importância da natureza como regente da vida dessas pessoas. Uma narrativa que parece carecer de sentido diante dessa constatação, mas que nunca aproxima-se do conformismo, pelo contrário, se por um lado apresenta aos personagens apenas uma caminho a seguir, por outro, revela que as maneiras de percorrê-lo são infinitas.
Faux raccord
segunda-feira, outubro 11, 2004
domingo, outubro 10, 2004
Bicicletas de Pequin – Wang Xiaoshuai 0
(Shiqi sui de dan che, 2001, Taiwan/China)
De Wang Xiaoshuai pudemos ver na Mostra do ano passado Drifters, seu filme mais recente, irregular, mas infinitamente superior a este. Vencedor do Grande Prêmio do Júri em Berlin, Bicicletas de Pequin deixa a desejar em todos os aspectos. Vi o filme na Mostra de 2001 e, já naquele momento, não tinha deixado boa impressão. Revisto hoje, continua cheio de problemas. Os principais talvez sejam o equívoco na opção pelo ponto de vista e a mão pesada na condução da narrativa, sempre se utilizando dos piores (mais apelativos) artifícios para envolver o espectador. Começamos o filme acompanhando a história de um dos personagens (Guo) e depois de meia hora conhecemos o segundo protagonista (Jian). Essa mudança é brusca, repentina. Não vemos nenhum sinal do segundo garoto enquanto acompanhamos o drama do primeiro. Só isso já causaria um estranhamento suficiente para se suspeitar das intenções do diretor. A narrativa nos leva a percorrer um caminho e, de repente, uma reviravolta acontece para desacreditar tudo aquilo que havia sido mostrado. Isso acontece mais de uma vez. Quando descobrimos que o segundo garoto não havia roubado a bicicleta, mas comprado no mercado negro ficamos com a sensação de que tudo aquilo que decorreu antes foi absolutamente desnecessário. O primeiro garoto, Guo, precisa, a todo momento, ser lembrado por alguém que é teimoso e cabeça dura e o segundo, Jian, Xiaoshuai faz questão de mostrar inúmeras vezes (quase sempre gratuitamente) ao lado de sua irmã, filha de outro casamento de seu pai, para acentuar os problemas que serão a grande motivação do personagem. Não fica claro quais são as intenções do autor com o drama que propõe. Jian, para quem a bicicleta é um capricho, e Guo, que precisa dela para sobreviver. Apoiar-se somente nesse embate parece muito pouco e a coisa só piora quando, pouco antes do final, o estudante cede a bicicleta a Guo tornando o desfecho ainda mais apelativo. No mais, são redundâncias e imposições típicas de alguém que parece não acreditar nas idéias, ou não saber exatamente o que quer dizer, e precisa repetí-las para tentar convencer a si próprio, questão que Xiaoshuai poderia muito bem ter resolvido antes de realizar o filme.
quinta-feira, outubro 07, 2004
Sob o olhar do mar – Kei Kumai *
(Umi wa miteita, 2002, Japão)
Último roteiro de Kurosawa sob a direção de Kei Kumai, Sob o olhar do mar é, assim como o mar (a natureza) que nos observa, um filme traiçoeiro. Visto de longe se mostra “irrepreensível”. Temos um primeiro momento onde personagens marginais (prostitutas e samurais deserdados) lidam com as dificuldades cotidianas e lutam contra obstáculos que a todo o momento ressaltam a crueldade de suas vidas, fadadas ao sofrimento. Quando nada mais resta o destino lhes prega a derradeira peça. A natureza reage trazendo a possibilidade da redenção. Após uma grande tempestade o mar se revolta e a pequena vila à beira-mar onde vivem é inundada. A prostituta mais velha sacrifica-se pela mais nova. Para esta ainda existe uma possibilidade. Tudo plasticamente belo. Um olhar mais próximo, no entanto, além de não nos revelar as minúcias por traz das mazelas daquele microcosmo, não deixa dúvidas quanto à fragilidade do roteiro. Fragilidade esta que Kumai parece fazer questão de ressaltar. Sua grandiloquência vêm à tona a todo instante, completamente fora de sintonia com a ação. Não se consegue em nenhum momento atingir um equilíbrio. Estamos diante de uma história onde a premissa trágica, que o dia a dia transforma numa trama minimalista é encenada por Kumai como um épico. Falta-lhe habilidade para equilibrar pequenos gestos dentro de uma abordagem que carece de sutileza, onde muito é imposto e pouco é sugerido. Fica nítida a distância que separa o diretor de seus personagens. Silêncios e espaços, enquadramentos e angulações, tudo contribui para uma caracterização por demais artificial. Falta vida aos objetos, à natureza e aos personagens. O destaque positivo fica para a atuação de Misa Shimizu, presente nos filmes recentes de Imamura, que comprova ser grande atriz. No final das contas, fica a sensação de que a tempestade lavou a roupa suja. E parou por aí.
sábado, outubro 02, 2004
Passagem azul - Yee Chin-Yen ***
(Blue Gate Crossing, 2002, Taiwan/França)
Primeiro filme do blog. Escolhido a dedo entre os filmes em cartaz, não é nenhuma obra prima, mas um belíssimo filme.
Filme de adolescentes por excelência, apresenta praticamente todo o tempo apenas os três adolescentes protagonistas da história (exceção feita à mãe de Meng Kerou e ao professor de educação física em participações pequenas, mas importantes). Revisto hoje (visto na Mostra de 2002) impressiona pela maneira segura, precisa e econônica com que a narrativa é conduzida sem nunca perder o vigor. O grande mérito do filme é apresentar os personagens de maneira coerente. Nada de garota de 15 anos que parece ter 25, como vemos em grande parte dos filmes que transitam pelo mesmo universo. Tudo acontece a seu tempo. Aqui apressar as coisas é opção e não condição. Timidez, rejeição, desilusão amorosa parecem realmente importar aos personagens. Passagem azul é, acima de tudo um filme de descoberta, sexual, num primeiro instante, existencial, num segundo. Num dado momento do filme Meng Kerou fecha os olhos e não consegue se imaginar daqui a alguns anos. Apesar disso afirma que vai guardar aquele momento para o resto da vida. Tem consciência de sua importância.
Passa se uma hora e meia e a impressão é a de que o que menos importou é o que aconteceu aos três protagonistas do filme. Algo marcou-os para sempre. E eles levarão isso para o resto da vida. A nós, resta a lembrança de um dia ter sido adolescente. O que daquela época nos marca até hoje só cada um pode dizer e pensar sobre isso é o mínimo que Passagem azul nos estimula a fazer. Instigante, muitas vezes ingênuo, mas jamais edificante.
